segunda-feira, 11 de junho de 2012

Domingo, 10 de junho de 2012.

Não posso deixar de expressar meu abatimento emocional e frustração ao lidar com certas conversas e situações de família. Ontem (domingo) estive com meus pais no período da tarde quando, por alguma razão, deixei escapar um comentário de crítica - não a ninguém especificamente, senão a uma incoerência do sistema legal brasileiro (pelo menos segundo me parece): por lei, todos os magistrados tem direito a sessenta dias de férias por ano e não a trinta dias somente, que é o normal a todo o resto da população no país. Estávamos eu, meu pai e minha mãe conversando à vontade e sem qualquer constrangimento variados assuntos, quando fiz tal observação quanto ao direito às férias em dobro para os juízes, ou seja, sobre até que ponto essa legislação encontra bases justificáveis. Percebi que minha mãe, de imediato, mudou seu tom de voz para algo mais enfático e eloquente, e dirigiu-me a palavra deste modo: "se eu ainda fosse jovem como você, faria  uma faculdade de direito e me dedicaria totalmente aos estudos para conseguir ser um juiz!" Este comentário de minha mãe, aparentemente uma simples colocação de opinião, despertou-me uma carga emocional nada positiva e um sentimento muito grande de derrota e inferioridade, algo que me tocou profundamente. Já explico o porquê.

Meu primo Afrânio (com quem pretendo viajar no setembro próximo), é juiz de direito há cerca de três ou quatro anos. Lembro-me de quando ele foi aprovado para o cargo de juiz: sempre fui um grande apoiador dele nesse projeto de vida, inclusive dividindo com ele meu apartamento em São Paulo para que ele pudesse passar um ano no curso de aperfeiçoamento em Direito localizado nas redondezas. Até hoje este meu primo é imensamente grato por todo o apoio que lhe ofereci; trata-me como um verdadeiro irmão - e para mim, somos irmãos de fato. É um dos seres humanos mais admiráveis que já conheci nesta vida, não pela conquista ou status profissional, mas por continuar sempre sendo a pessoa simples que conheci em Manaus, caminhando entre as pessoas do bairro usando bermuda e sandália de dedo, conversando com todos de igual para igual independente de classe, religião, origem, cor etc. Mas enfim, voltando à questão do dia em que se soube que ele havia sido aprovado para juiz: minha mãe ligou para mim, com um tom de voz um bocado estranho, algo que transmia uma atmosfera meio que carregada. Parecia a voz de quem acabava de vir de um funeral. Ela disse: "Gláucio, ficou sabendo que o Afrânio passou no concurso para juiz?", ao que respondi entusiasmadamente: "Soube sim, mãe! Graças a Deus, ele lutou tanto por isso e agora, depois de anos de batalha, finalmente conseguiu! Estou tão feliz com a conquista do meu primo que sinto como se fosse uma conquista minha também!". Minha mãe, no mesmo sombrio tom de voz ao telefone, respondeu-me numa mistura de frustração e sarcasmo: "É... Ele sim, foi alguém que soube sonhar grande na vida!". Fiquei ao mesmo tempo chocado e decepcionado ao ouvir minha mãe falar daquele jeito quando de nossa primeira conversa sobre a vitória pessoal do Afrânio. Bem, acontece que desde então, foram várias as ocasiões em que minha mãe me atira no rosto frases como esta de ontem, ou seja: "você deveria cursar Direito, estudar para um alto cargo público", ou então "por que você não estuda pra ser juiz?" Ora, de profissão, sou apenas um mero escrevente técnico do tribunal de justiça em São Paulo. Salarialmente falando, um juiz de direito deve ganhar cerca de quatro ou cinco vezes os meus proventos. Nos últimos tempos tenho aprendido sobre o contentamento (que não se confunde com o conformismo comodista), o desprendimento e o valor às coisas verdadeiras e perenes na vida de uma pessoa. Saber tocar um instrumento musical (tenho-me dedicado ao violão clássico), ler livros interessantes, praticar esportes, valorizar bons filmes; mas acima de tudo construir um modo de viver que seja gratificante para mim e ao mesmo tempo benéfico aos que me cercam. Nestas alturas de minha vida dificilmente serei alguém que "venceu na vida" da mesma forma que o Afrânio; ele seguiu o caminho dele e eu sigo o meu. Sinto-me profundamente angustiado e frustrado diante de comparações como essas que minha mãe costuma fazer. Disse a ela que o mais importante talvez fosse que se preocupasse em ter um filho feliz, não necessariamente um filho juiz. Disse ainda que essas comparações entre mim e meu primo vem ocorrendo com certa regularidade desde que ele passou no concurso, e que esse tipo de comentário não me faz sentir nada bem. Claro, minha mãe não se retratou e nem tampouco pediu desculpas (pais e mães jamais pedem desculpas a filhos - bem, pelo menos não os meus). Entrei num estado de espírito um tanto aflitivo e angustiante, como há muito tempo eu não experimentava. 




Em minhas mãos, a primeira Paulaner da noite de domingo
Resolvi ir à Braugarten, no shopping próximo. Geralmente prefiro tomar chope, mas o garçom me falou sobre a promoção de comprar três garrafas de Paulaner (cerveja de Munique), e ganhar de brinde uma caneca com o logo da cerveja. Cada garrafa pelo custo de R$ 18 (9 USD). Aceitei a proposta e fui tomando as cervejas com acompanhamento de uma porçãozinha de apetitosos pastéis de queijo. Uma delícia de bebida sem dúvida; já havia tomado Paulaner quando viajei em 2010, mas desde então não mais voltei a provar esta gostosa e encorpada cerveja importada. O fato é que não bebi somente as três garrafas, acabei passando da conta e pedindo mais três: além de ser realmente de incomparável sabor a bebida, achei interessante ganhar duas canecas como brinde, não apenas uma. Apesar de ter tomado bem devagar, a verdade é que seis cervejas é uma quantidade grande de álcool, realmente muito grande. No meio de minha caminhada para casa, ainda perto do shopping, agachei-me próximo a um morador de rua deitado na calçada à frente de uma loja fechada. Ele dormia, mas despertou e fitou seus olhos nos meus, tentando fazer sentido do que acontecia. Estendi a mão e lhe ofereci uma nota de R$ 20 (10 USD). Ele sorriu e me agradeceu bastante, e me abençoou. Sorri-lhe de volta.
Ao chegar em casa percebi que uma das canecas havia rachado provavelmente por meu descuido ao entrar no prédio, quando a sacola com as duas canecas bateu de leve no portão.


Tomei meu comprimido de rivotril e bebi bastante água - afinal, eu sabia que havia exagerado, e muito, na quantidade de bebida ingerida. Começava a realmente passar mal, o conhecido sintoma da cabeça "girando" e do enjôo extremo. Corri para o vaso sanitário e vomitei um pouco, o que me proporcionou a sensação de certo alívio. Há muitos anos que não experimentava um mal-estar alcoólico dessa natureza. Tomei uma ducha gelada - a noite estava razoavelmente fria, cerca de 14º - dizem que água gelada é um bom remédio para quem tomou mais álcool do que deveria. Joguei-me na cama de qualquer jeito e aos poucos fui adormecendo. Sentia-me um bocado nauseado, e abatido por completo, tanto no corpo quanto na alma.

Por que combater então?
Porque é preciso. Porque o contrário seria indigno. (André Comte-Sponville)
The Downtrodden, de Kollwitz. 1900.

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